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Trilha Inca Tradicional – Relato da minha experiência.

Trilha Inca Tradicional

Uma das experiências mais incríveis e marcantes da minha vida. O post é para tentar detalhar esse desafio com uma paisagem inesquecível… Mas já adianto, meus relatos ou qualquer foto não explica 10% dessa experiência única.

Existem pacotes específicos e trilhas diferentes. Eu fiz a Trilha Clássica, de 4 dias. É a mais concorrida, para conseguir vaga, você deve entrar em contato com antecedência de 4-5 meses.

Cada grupo faz uma certa quantidade de km por dia, acampam em lugares diferentes. Então, não se baseiem nos meus km exatos aqui. Mas ao todo são 39 lindos e desafiadores quilômetros.

Qual a melhor época para fazer a Trilha Inca:

Nas pesquisas e conversando com os próprios guias na execução da trilha, o conselho é unanime: de março à setembro.

Entre outubro –  fevereiro é época de chuvas na região, e além de prejudicar a visibilidade das belas paisagens a dificuldade da trilha na chuva é muito maior.

Sobre a preparação para a Trilha Inca:

Nunca havia feito uma trilha na minha vida, para começar. Em compensação, atividades físicas sempre fizeram parte do meu cotidiano. Pensando no pique, na dificuldade em respirar na altitude, iniciei aulas de spinning dois meses antes. Mesmo assim tive dificuldade na trilha. A altitude, as subidas íngremes e as descidas que acabam com seu joelho te cansam, desafiam e respirar é tão mais difícil. Vi pessoas de todas as idades fazendo a trilha, mas de fato, nenhum com cara de sedentário ou que não leve um estilo de vida mais saudável.

Resumo a trilha em:

Puxada, cansativa, desafiadora, perigosa e claro, compensadora, muito compensadora.

O que levar na Trilha Inca:

Mochila (levei uma de 42 litros) foi composta:

  • Roupas:

  1. 3 calças (duas para trilha e uma para dormir).
  2. 2 tênis ou uma bota trekking (como nao comprei a bota específica para a trilha, que geralmente é impermeável, fiquei com receio que chovesse e molhasse).
  3. 3 camisetas (sim, faz muito frio por lá, mas não o tempo todo. As temperaturas sobem durante o dia e com a caminhada, você se livra dos casacos rapidamente).
  4. 1 blusa tipo fleece.
  5. 1 jaqueta corta vento, de preferência impermeável. (De fato a temperatura oscila muito, principalmente no segundo dia, onde atingimos 4.200m e 4.100m de altitude em dois momentos. Lá faz muito frio, estamos nas nuvens e pertinho dos montes nevados. No cair da noite e pelo amanhecer, faz muito frio também).
  6. 1 blusa térmica para dormir. (Eu levei 3 achando que usaria na execução da trilha, mas de fato, quando fica quente você quer é estar de camiseta mesmo).
  7. 4 meias, de preferência dry max.
  8. 4 peças íntimas e 2 tops.
  • Vamos aos acessórios:

Higiene:

  1. Kit banho para o terceiro dia: shampoo, condicionador e sabonete. (Sim, banho só rola no terceiro dia de trilha e é gelado. Mas você não pensa duas vezes, depois de dias sem aquela água em abundância escorrendo pelo seu corpo, o banho é renovador).
  2. Kit de higiene bucal: Escovas de dente, fio dental e creme dental.
  3. Lenços umedecidos: sim, será seu banho por dois dias. Fundamental.
  4. Toalha para banho. (Uma bem pequena).
  5. Desodorante.

Acessórios:

  1. Boné ou chapéu: FUNDAMENTAL.
  2. Óculos de sol
  3. Protetor solar para corpo e rosto.
  4. Capa de chuva.
  5. Repelente.
  6. Gorro e luvas.
  7. Câmera fotográfica ou bateria extra para o celular, afinal energia elétrica não existe por lá.
  8. Snacks para beliscar durante a trilha.
  9. Garrafa de água de pelo menos, 1 litro. (nos primeiros 2 dias conseguimos comprar água no caminho, mas depois disso o pessoal do acampamento ferve e completa seu refil).

A barraca e os sacos de dormir foram fornecidos pela agência (confirme com a sua), bem como toda a alimentação.

E não se preocupe, se você for intolerante, vegetariano ou vegano é só avisar com antecedência a agência. Eu comi super bem, com direito a panquecas de chocolate, leite de aveia, bolos, etc, tudo sem leite.

Em relação ao cajado, eu não comprei e não senti falta. Acho até que ajudaria… Mas não tanto. É recomendado para quem tem problemas nos joelhos.

Conselhos:

Pague para os carregadores levarem seu saco de dormir e o colchonete térmico. Eu não imaginava que pesasse tanto. Como achei que seria apenas o peso da mochila com minhas roupas, acabei não contratando. Porém, quando chegou o dia e eles me entregaram o saco de dormir e o colchonete foi um desespero. Mal começou a trilha e minhas costas estavam muito doloridas. Seria impossível concluir a trilha levando esse peso extra. No segundo dia paguei aos carregadores (em torno de 50 soles por dia) para eles levarem o saco de dormir e o colchão térmico. O melhor investimento. Acredite em mim!

Ainda, invista em uma mochila boa, com as alças confortáveis.

E como é a Trilha Inca?

  • 1º Dia: coração ansioso.

Acordamos as 4 hrs a manhã em Cusco e o transfer nos pegou às 5 hrs.  Chegamos em Piskakucho perto das 9 hrs e logo começamos a trilha, que por sinal, começa bem tranquila (tirando o peso extra da mochila, que me incomodou bastante).

Coração estava ansioso… Apesar de ver algumas fotos não consegui formar uma ideia fixa do que seria essa aventura, ainda mais que nunca fiz qualquer trilha na minha vida.

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Nosso grupo: Uma família de ingleses (muito simpáticos), os guias, nosso novo amigo Paulo brasileiro, Caco e eu.

Lá estávamos nós, no KM 82, iniciando a jornada.

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Como relatei acima, comecei a trilha mais tensa quando recebi o saco e o colchonete de dormir…  Não contava com esse peso extra… Por sorte, a trilha começa fácil, com bastante retas, sem subidas tão íngremes. Logo, nos impressionamos com os sítios arqueológicos que encontramos pelo caminho… Mas com certeza, as melhores cidadelas/templos estão no final do segundo dia, onde os espanhóis não conseguiram chegar e destruir, e são em quase sua totalidade originais.

Outro detalhe que chama muito a atenção nesse primeiro dia é o Monte Nevado Verônica que alcança os 5.832 m.s.n.m. 

Fizemos em torno de 12km nesse primeiro dia e alcançamos os 3.0o0 m.s.n.m. Há vários pontos de acampamentos e nos ficamos em um dos últimos, então, caminhamos um pouco mais e já provamos um pouco do segundo dia, que é o mais difícil: Subidas íngremes.

As refeições foram surpreendentes… Não achei que teríamos comidas tão gostosas na trilha. Viva o cozinheiro e os carregadores. Sem eles, não seria possível… Eles levam em torno de 25-30kg nas costas (o acampamento todo se desloca, na trilha restam as bases (chão limpo para armarem as barracas) e os banheiros.

Chegando ao acampamento, pedi para o guia negociar com os carregadores, para eles levarem os sacos e o colchonete de dormir. Seria impossível completar o segundo dia com esse peso a mais.

Ao todo: 12 km nesse dia.

  • 2º Dia: difícil, desafiador e compensador.

Apesar de combinarmos na noite anterior o horário para levantar, os carregadores nos acordaram todos os dias uns minutinhos antes oferecendo chá de coca quentinho, e depois uma água quente em uma bacia para lavar o rosto. Café da manhã delicioso (panqueca com chocolate sem leite? quase pedi a receita haha), leite de aveia, pão…

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A trilha começa linda, no meio da mata, com um riacho ao lado, e as escadas de pedra começam a ficar puxadas.

Ao longo desta subida (1.000 m.s.m.n), a paisagem vai se modificando devido à mudança de altitude. Há várias Llamas e Alpacas, chegando no trecho da montanha conhecida como “Abra de Warmihuanusca” (“Passo da mulher morta”), e lá vem a parte mais alta da trilha…

Logo que me deparo com a subida sem fim, entendo quando todos falam que o segundo dia é bem difícil…. e quando começo a subir descubro que nunca pensei que fosse tão difícil… 10 passos e você precisa parar para respirar… estamos quase lá, aos 4200m de altitude…

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A única coisa que pensava é: Não acaba nunca?

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Uma das partes mais difícil, se não, a mais difícil.

Mas quando você chega ao topo, está no mesmo lugar que as nuvens, há uma das vistas mais lindas e incríveis da sua vida, é algo…. inexplicável mesmo. Mas aqui escrevendo eu lembro… e vem uma emoção e vários detalhes na memória, infelizmente (ou não) são indescritíveis… Mas tem muita, muita alegria, com certeza!

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Um detalhe que gosto muito de lembrar: o silêncio lá em cima, era tão diferente… incrível.

Bem, se subimos tanto, desceremos um bom tanto novamente…. e a notícia de que subiríamos novamente aos 4.100 m.s.n.m deixou a descida um pouco: não quero descer pois terei que subir tudo de novo… mas admito que a segunda foi mais “tranquila”…

Sobre “as descidas”, se você pensa que são boas, não são… Elas forçam o joelho, tanto… e você não pode tirar o olho do chão, afinal as escadas não tem o mesmo tamanho, e isso acaba com seu pescoço. Mas são mais preferíveis que as subidas, com certeza haha.

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O segundo dia é incrível e desgastante… mas ao final dele chegamos aonde os espanhóis não chegaram…. e lá… especialmente tem um dos templos de mais amei: Sayqmarka.

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Estamos nas nuvens…

É demais… que lugar(es)!

O guia comentou que ao todo, fizemos 16km esse dia… quando estávamos chegando no acampamento, comecei a passar mal… o caminho já não era puxado, mas o desgaste físico já havia dado as caras… estava literalmente acabada…

  • 3ª Dia: Um caminho tranquilo, cheio de beleza e com vários sítios arqueológicos.

Caminho verde? Sim! estamos em uma altitude mais baixa e a trilha passa pelo meio de florestas tropicais…

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Muita descida pelo caminho… o pensamento positivo fica focado no joelho que esta recebendo todas as pancadas ahaha.

A paisagem muda muito nesse dia, mesmo… uma região mais tropical, verde, onde chove frequentemente… mas nos passamos ilesos, sem um pingo de chuva. OBA!

Se der sorte, você consegue se deparar com várias espécies de orquídeas e flores diferentes, como essa no canto direito da foto:

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Da para acreditar nesse lugar?

O caminho é inacreditável… no mesmo campo de visão você tem: Montanhas, montes nevados, muito verde, riachos e ainda as obras desse povo incrível que foram os Incas…

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Intipata.

 

 

 

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Intipata: Fiquei em torno de 45 minutos sentada, em silêncio, observando essa paisagem… que paz!

thumb_IMG_3869_1024Além de ser um caminho mais fácil (considerando o dia anterior), temos poucos km pela frente: apenas 6km nesse dia. Então, além de caminharmos com mais tranquilidade, na sombra, ainda fizemos grandes pausas nas cidadelas e templos.

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Chegamos no acampamento para o almoço. Aproveitei que cheguei antes dos demais e fui tomar um banho… que água mais gelada, uma parte do corpo de cada vez, ai ai ui ui grrrrrrr hahaha mas admito que o banho foi renovador! O sol me aqueceu depressa.

O acampamento fica super próximo Winaywayna (5 minutos caminhando) e a tarde fomos conhecer. Está a 2.700 m.s.n.m., e é repleto de terraças agrícolas, templos religiosos e setores urbanos, sendo um dos mais impressionantes da região. 

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Dormimos super cedo nesse dia: motivo: vamos acordar as 3 da manhã, para pegar o nascer do sol no portal do sol.

  • 4ª Dia: Destino final.

Acordamos cedo: 3 horas da matina… Os carregadores precisam desmontar o acampamento para conseguirem pegar o trem em Águas Calientes.  Nós, ficamos sentados, na fila, esperando a abertura do posto de controle de entrada para Machu Picchu… Que só abre as 5 manhã….

Apenas 5km nesse dia, mas um caminho com escadas bem íngremes.

Paramos em Inti Punku também conhecida como “Portada do Sol”, que é o ponto onde podemos ter uma vista de 180 Graus de Machu Picchu e lá esperamos um espetáculo: o nascer do sol e a neblina que se dissipa em segundos! Finalmente avistamos Machu Picchu do alto… é gigante, é lindo.

Descida final à Machu Picchu.
Descida final à Machu Picchu.

Entrar em Machu Picchu, trouxe uma sensação estranha e inesperada para mim: um pouco decepcionante… Não, não me entenda mal… Mas depois do contato total com a trilha, poucas pessoas pelo caminho e templos, o silêncio… me sentia parte de tudo aquilo! Ao chegar em Machu Picchu, ficamos um pouco incomodados pela quantidade de turistas, é tudo muito lotado, cheio, você não consegue tirar uma foto sem aparecer várias pessoas nela… Então, de trilheiros e aventureiros voltamos ao status de turistas hahaha. Mas por favor, o lugar é absurdamente incrível, você não entende como os incas construíram tudo aquilo, com tanta sabedoria, cuidado e beleza…

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Parte de Machu Picchu e ao fundo Wayna Picchu (o morro mais alto).
Parte de Machu Picchu e ao fundo Wayna Picchu (o morro mais alto).

Nos compramos ingressos para subir o Wayna Picchu… e não esperávamos um caminho tão difícil. Além da canseira acumulada na trilha, o caminho realmente é perigoso, íngreme e difícil. Escadas impossíveis! Mas vamos lá, eu acho que a vista de cima vale a pena! Encontrei a paz e a calma que queria para observar melhor Machu Picchu. A subida a Wayna Picchu é controlada, e se você deseja chegar lá recomendo comprar os ingressos antes… Muita gente queria subir nesse dia e não tinha mais vagas.

Wayna Picchu: Vista incrível de Machu Picchu.
Wayna Picchu: Vista incrível de Machu Picchu.

Dificuldade extrema em Wayna Picchu, mas muito compensadora.

Wayna Picchu: Escadas íngremes e pequenas.
Wayna Picchu: Escadas íngremes e pequenas. Descer sentada é a melhor opção. srs

Bem, descendo de Wayna Picchu resolvemos voltar pela trilha até Águas Calientes… Caminhando… A fila para pegar os ônibus estava absurda (quilômetros de fila) e ficamos com receito de perder o horário do nosso trem para Cusco. É uma pernada, muita descida, para terminar com o joelho de vez… Cheguei a Águas Calientes esgotada mesmo… Mas orgulhosa de todos os quilômetros que deixei para trás e todos os sentimentos que trouxe comigo.

Caminho para Águas Calientes.
Caminho para Águas Calientes. Fim da jornada.

Fazer a trilha foi uma das melhores experiências da minha vida… tenho certeza. Sinto saudades de tudo que vi por lá! Dificilmente encontrarei paisagens como essas novamente… e o desafio trouxe uma mágica a mais! Obrigada Peru! Obrigada carregadores! Obrigada Incas, vocês foram um povo realmente instigante, incrível e inesquecível.

 

 

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