Pergunte ao Professor

Condromalácia patear x agachamento a fundo, fazer ou não fazer?

Condromalácia patelar

A patologia mais comum que afeta o joelho das mulheres é a famigerada condromalácia patelar.

Por que afeta as mulheres?

As mulheres são mais propensas a lesões no joelho quando comparadas a homens devido a diferenças anatômicas. Uma dessas diferenças é a bacia mais larga e a maior incidência do joelho valgo.

Muitos especialistas em medicina esportiva associam a pelve mais ampla com alterações no ângulo Q (ângulo formado entre o fêmur e a patela).

O ângulo Q é medido através de uma linha imaginária entre a patela e a crista ilíaca (pontos ósseos anatômicos). Em média, este ângulo é maior em mulheres do que em homens.

Acredita se que este aumento do ângulo lateraliza a patela (coloca a mesma fora do eixo).

Embora possam ter outros fatores que levam ao aumento do risco de lesões em mulheres (Força, habilidade, hormônios, etc), o aumento do ângulo Q tem sido associado a Síndrome da dor patelofemural.

Entenda o Ângulo Q:

Ângulos Q altos lateralizam a patela, (“puxam”a mesma para o lado externo) fazendo com que a patela deslize numa posição que gera atrito com o côndilo do fêmur.

Com o tempo, isso pode causar dor no joelho, levando a uma patologia chamada de condromálacia patear.

A dor se localiza na frente do joelho e vem acompanhada de uma crepidação da articulação quando fazemos o movimento de extensão e flexão.

A Lesão:

A lesão se caracteriza por um desgaste da cartilagem hialina do lado de baixo da patela levando a dor e inflamação.

Nem todas as mulheres que apresentam quadril largo e joelhos valgos desenvolvem dor ou condropatias, isto é uma individualidade, porém quando ocorre, está associada a essas características anatômicas.

Muito tem se pesquisado sobre as melhores formas de tratar o problema.

Treinamento para condromalácia:

No que diz respeito ao treinamento com pesos, o que se adota é trabalhar em ângulos de flexão reduzidos ou utilizar exercícios de cadeia cinética fechada, como o leg press, que deve ser executado com uma bola entre os joelhos, na tentativa de “trazer” a patela para a posição correta devido a uma maior solicitação do vasto medial oblíquo.

“A ciência não embasa isso como algo efetivo, é apenas uma teoria sem uma sustentação de resultados práticos pela ciência do treinamento. Ou seja, em teoria o uso da bola e uma co-ativação dos adutores de coxa em concomitância com o movimento de extensão e flexão do joelho, não funcionam tão bem como na prática para fortalecer o VMO (vasto medial oblíquo)”. Afirma o especialista Professor Rodrigo Boson.

Exercícios de cadeia cinética aberta (cadeira extensora, mesa flexora etc) devem ser feitos no início com limitação de ângulos.

A condromalácia se manisfesta em vários graus (1,2,3,4) e para cada indivíduo há uma maior ou menor escala de dor e limitações.

Por exemplo, indivíduos com grau 4 que apresentam um quadro de dor, devem trabalhar com ângulo pequenos, na faixa de 30 graus no início.

Quanto ao treino, cuidados na seleção de exercícios , limitação de ângulos ou não e a periodização são a solução.

Não existe um método único para o treinamento uma vez que a patologia se manifesta de várias intensidades.

Uma dúvida comum, é a inclusão do agachamento profundo nas rotinas de treino de um indivíduo que sofre deste problema.

A resposta para esta questão está relacionada ao grau da patologia e nível de treinamento.

 

 

Agachamento profundo para condromalácia:

Dentro da rotina periodizada é possível dentro da semana, a realização em um dos treinos de membro inferior, do agachamento profundo se o indivíduo não apresentar dor durante a execução e ter passado por um processo de aumento de ângulos anteriormente.

Um trabalho extremamente relevante publicado no Sports medicine, publicado por Hartmamn et al.sustenta esta prática, uma vez que o autor analisou 164 artigos sobre agachamentos publicados entre março de 2011 e janeiro de 2013, e concluiu ser infundada a ideía do agachamento profundo possa causar mazelas ao joelho.

No trabalho de Hartmamn não há nada que sugira que a inclusão do Agachamento profundo a longo prazo possa agravar a condromalacia, isto endossa o uso do exercício seguindo os critérios da periodização ondulatória, leia o meu artigo (clique aqui) que leva a semana do praticante em consideração para a montagem do treinamento.

O grau da condromalácia e nível de treinamento é que vão decidir o uso ou não do exercício.

Pode ser que nos dias seguintes ao treino, o praticamente apresente um desconforto na articulação, sinalizando que na próxima sessão, outras estratégias e seleção de exercícios sejam adotadas.

Inclusive o grupo de Bazyler num trabalho acadêmico publicado este ano no J.Strength Cond. Res. Demonstrou que a associação de agachamento parciais e profundos devem ser feitos dentro da periodização para potencializar os ganhos de força e potência.

Demostrando que o profundo não é uma estratégia fechada como a mais eficiente.

Independente de possuir a patologia ou não, é importante dentro do ciclo de treinamento utilizar o agachamento parcial para potencializar seus resultados.

Lembrando que o agachamento parcial é interessante, pois mesmo em casos mais graves de condromalácia a limitação do ângulo permite a realização do exercício sem dor para o praticamente.

Ao longo do tempo, sob orientação adequada, o agachamento profundo pode e deve ser utilizado por quem possui a patologia.

Considerações práticas:

O melhor remédio para a condromalácia patelar é o fortalecimento da articulação.

Se você possui o problema, sofre para dirigir ou mesmo para ficar sentado no cinema, entenda, sem o fortalecimento não existe a cura.

Faça a progressão de ângulos lentamente usando a periodização, faça em ciclos, onde em determinadas semanas voce utiliza ângulos profundos e em outras ângulos reduzidos.

Não trabalhe com modelos fechados quando se trata de corpo humano. consulte um treinador com leitura e anos de prática.

Até a Próxima, Rodrigo Boson. Siga no Instagram @rodrigo.boson

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Referências
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2- J Orthop Res. 2006 Dec;24(12):2201-11.Patellofemoral kinematics during knee flexion-extension: an in vitro study.Amis AA1, Senavongse W, Bull AM
3- J Orthop Res. 2001 Sep;19(5):834-40.Q-angle influences tibiofemoral and patellofemoral kinematics.Mizuno Y1, Kumagai M, Mattessich SM, Elias JJ, Ramrattan N, Cosgarea AJ, Chao EY.
4- Clin Biomech (Bristol, Avon). 2004 Dec;19(10):1070-3.Q-angle undervalued? The relationship between Q-angle and medio-lateral position of the patella.Herrington L1, Nester C.
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Sports Med. 2013 Oct;43(10):993-1008. doi: 10.1007/s40279-013-0073-6.
7-McNamara, John M; Stearne, David J
Flexible Nonlinear Periodization in a Beginner College Weight Training Class
Journal of Strength and Conditioning Research

Rodrigo Boson
Professor de Educação Física UFRJ
Pós Graduação em Fisiologia do Exercício e Treinamento de Força.
Especialista em Emagrecimento.
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Rodrigo Boson
Professor de Educação Física UFRJ Pós Graduação em Fisiologia do Exercício e Treinamento de Força. Especialista em Emagrecimento.