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Quem é esse tal de Alzheimer e o que o exercício tem a ver com isso?

Doença de Alzheimer

Quem é esse tal de Alzheimer e o que o exercício tem a ver com isso?

Olá! Primeiramente agradeço pela sua atenção voltada para um tema de tamanha relevância para a saúde física e mental internacional.

Sou o Professor Raphael Marques e gostaria de esclarecer algumas coisas com relação a Doença de Alzheimer (DA).

O Dr. Aloysius Alzheimer (psiquiatra alemão) descobriu em 1906 uma das doenças neurodegenerativas mais hostis da história da humanidade, portanto, sejamos muito gratos a ele. No entanto, precisamos dispor de todos os recursos possíveis para combater o tema central de seu principal legado acadêmico/clínico: a Doença de Alzheimer.

Sem mais delongas, trata-se de uma neuropatologia progressiva de causa multifatorial (predisposição genética e fatores biopsicossociais), idiopática (surge espontaneamente, sem aparente dependência da ocorrência de outras doenças) e até o momento incurável.

Consiste, em sua fisiopatologia, na formação de placas senis – originadas pelo mau gerenciamento das proteínas beta-amiloides e; dos emaranhados neurofibrilares – decorrentes da aglutinação de filamentos de neurônios que tiveram comprometimentos na função da proteína Tau, que é responsável pela manutenção da sua estrutura física, com consequente apoptose, ou seja, morte celular neuronal (Coelho et al., 2009).

Esta cadeia de eventos culmina na progressiva perda neuronal em várias áreas do córtex cerebral e consequentes comprometimentos em funções importantes, como:

  • memória de curto prazo,
  • funções executivas (planejamento de tarefas, por exemplo),
  • controle inibitório (relacionado às habilidades necessárias para a boa convivência social),

Em estágios mais avançados da doença:

  • perda de reconhecimento de pessoas próximas,
  • perda da autoimagem,
  • perda das funções locomotoras.

A incidência de Doença de Alzheimer aumenta à medida que a população mundial envelhece e é a forma mais comum de demência em idosos. Estima-se que, até o momento, a sua prevalência seja de mais de 35 milhões de casos em toda a população mundial (Prince et al., 2013).

Tratamento:

Os tratamentos convencionais mais populares usados para combater a Doença de Alzheimer têm como base a farmacoterapia e exercícios de atenção, memória e cognição. Porém, há estudos com design experimental elegante, nos quais foram empregados métodos sofisticados de neuroimagem e protocolos específicos de exercícios físicos demonstrando que esta abordagem também pode ser considerada um relevante tratamento adjunto para muitas doenças mentais, por “construírem a saúde mental” em humanos (Cotman et al., 2007) .

Tal afirmação é convergente com outros achados científicos que apontam o emprego de exercícios de força e aeróbios como grandes aliados da saúde mental, inclusive para indivíduos com DA (Deslandes et al., 2009).

Os efeitos “antienvelhecimento” dos exercícios físicos são bem documentados pela literatura científica há alguns anos (Deslandes, 2013).

Vários estudos que utilizaram protocolos de exercícios físicos de força e aeróbios reportaram seus benefícios para a atenuação dos sintomas de várias doenças mentais, como: Depressão, Transtornos de Ansiedade, Doença de Parkinson e a já referida Doença de Alzheimer, que é o principal tema abordado nessa análise crítica (Archer, 2011; Shulman et al., 2013; Silveira et al., 2013; Stonerock et al., 2015).

Em convergência com outros achados científicos correlatos ao tema saúde mental e exercício físico, um estudo recente realizado por um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) chamou a atenção da imprensa nacional e internacional com perspectivas muito animadoras a respeito dos efeitos dessa abordagem na Doença de Alzheimer.

Nova descoberta na UFRJ:

Num procedimento experimental com roedores (ratos), submetidos a sessões de exercícios diárias de 1 hora (nado forçado), 5 vezes por semana por um período de 5 semanas, observou-se o aumento significativo na expressão da FNDC5 (protein fibronectin type III domain-containing protein 5), substância precursora à irisina, que tem sua  produção relacionada à pratica de exercício físico e exerce importantes funções na manutenção da sinalização hormonal, da transmissão sináptica e do volume do Hipocampo (estrutura cerebral relacionada à memória, ao aprendizado e à neurogênese – proliferação de células neuronais).

Isso significa que, ao menos em ratos que se exercitaram intensamente, conforme os métodos descritos neste estudo, foi evidenciada uma correlação positiva entre o aumento nos níveis de irisina e à atenuação importante dos sintomas da Doença de Alzheimer expressos nos roedores que compuseram esta amostra (Lourenco et al., 2019).

Este achado abre um vasto horizonte científico de múltiplas possibilidades.

Por exemplo, talvez seja viável produzir sinteticamente a irisina e administrá-la em humanos com Doença de Alzheimer mas isso demandaria anos de pesquisa. A boa notícia é que o exercício físico já faz bem à saúde física e mental agora mesmo… basta praticá-lo regularmente!!!

Não há até o momento estudos com amostras humanas que tenham utilizado semelhante ou proporcional protocolo de exercícios físicos com a finalidade de investigar se ocorrem no nosso cérebro respostas semelhantes ás observadas nos ratos.

Também não se sabe ainda qual seria a quantidade recomendada e as modalidades de exercícios mais adequadas para gerar tal resposta neurológica em nós.

Mas há robustez e consistência suficientes na literatura a respeito dos vários benefícios dos exercícios físicos para a melhora da memória, do humor, do sono, a atenuação da ansiedade, da redução dos efeitos do estresse crônico, etc., fatores sabidamente intervenientes na saúde geral da população.

É possível, portanto, promover imediatamente programas que contemplem modalidades variadas de atividades físicas nos setores público e privado, com o objetivo de reduzir a ocorrência e minimizar os danos causados por doenças crônicas e/ou neurodegenerativas progressivas como a Doença de Alzheimer. Movam-se!!! Esse ainda é o melhor remédio.

​Prof. Raphael Marques Gomes siga no Instagram @prof_rapha_marques

Profissional de Educação Física ​(Physical Educator) – CREF 1: 005288-G/RJ.

PROATIVAS (Programa de Atividades Integradas por Vidas Autônomas e Saudáveis)

REFERÊNCIAS:

ARCHER, T. Physical exercise alleviates debilities of normal aging and Alzheimer's disease. Acta Neurol Scand, v. 123, n.
4, p. 221-38, Apr 2011. ISSN 1600-0404. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20880302 >.
COELHO, F. G. et al. [Systematized physical activity and cognitive performance in elderly with Alzheimer's dementia: a
systematic review]. Braz J Psychiatry, v. 31, n. 2, p. 163-70, Jun 2009. ISSN 1516-4446. Disponível em: <
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19578690 >.
COTMAN, C. W.; BERCHTOLD, N. C.; CHRISTIE, L. A. Exercise builds brain health: key roles of growth factor cascades and
inflammation. Trends Neurosci, v. 30, n. 9, p. 464-72, Sep 2007. ISSN 0166-2236. Disponível em: <
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17765329 >.

DESLANDES, A. The biological clock keeps ticking, but exercise may turn it back. Arq Neuropsiquiatr, v. 71, n. 2, p. 113-8,
Feb 2013. ISSN 1678-4227. Disponível em: < http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23392323 >.
DESLANDES, A. et al. Exercise and mental health: many reasons to move. Neuropsychobiology, v. 59, n. 4, p. 191-8,
2009. ISSN 1423-0224. Disponível em: < http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19521110 >.
LOURENCO, M. V. et al. Exercise-linked FNDC5/irisin rescues synaptic plasticity and memory defects in Alzheimer's
models. Nat Med, v. 25, n. 1, p. 165-175, Jan 2019. ISSN 1546-170X. Disponível em: <
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/30617325 >.
PRINCE, M. et al. The global prevalence of dementia: a systematic review and metaanalysis. Alzheimers Dement, v. 9, n.
1, p. 63-75.e2, Jan 2013. ISSN 1552-5279. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23305823 >.
SHULMAN, L. M. et al. Randomized clinical trial of 3 types of physical exercise for patients with Parkinson disease. JAMA
Neurol, v. 70, n. 2, p. 183-90, Feb 2013. ISSN 2168-6157. Disponível em: <
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23128427 >.
SILVEIRA, H. et al. Physical exercise and clinically depressed patients: a systematic review and meta-analysis.
Neuropsychobiology, v. 67, n. 2, p. 61-8, 2013. ISSN 1423-0224. Disponível em: <
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23295766 >.
STONEROCK, G. L. et al. Exercise as Treatment for Anxiety: Systematic Review and Analysis. Ann Behav Med, v. 49, n. 4,
p. 542-56, Aug 2015. ISSN 1532-4796. Disponível em: < http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25697132 >.

Marcello Paiva
Idealizador do portal @30tododia
Professor de Educação Física – UFRJ
Pós graduação em Fisiologia do Exercício e Programação Neurolinguística.
Coaching deTreinamento / Palestrante Motivacional
Consultas: 21 2529-6473
Email: marcellopaiva@30tododia.com.br
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Marcello Paiva
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