#30 Reality, Dicas

Ironman 70.3 Rio de Janeiro

Ironman 70.3 Rio de Janeiro

Pela primeira vez na história uma prova de Ironman 70.3 desembarcava na cidade maravilhosa.
Eu (Guilherme Guido) havia recém chegado do Ironman 70.3 de Foz do Iguaçu, onde fui preparado para disputar uma vaga para o Mundial, porém as coisas não aconteceram da forma como eu havia planejado. O que me fez voltar pra casa com mais determinação.
Matéria Ironman 70.3 Foz do Iguaçu aqui.
Um mês é um intervalo relativamente curto para provas longas mas como eu estava em busca de um objetivo maior, esse período veio acompanhado de muita dedicação nos treinos.
Me sentia muito bem preparado, muito confiante devido ao meu empenho nos treinos! Porém, teoricamente seria uma prova de muita pressão psicológica já que eu havia batido na trave em relação à classificação para o Mundial na minha última prova.
A própria torcida dos amigos vinha acompanhada de certa pressão, quando por muitas vezes ouvi:
“Vou torcer pela classificação…” ou “quero ver você na Austrália!”, mas resolvi usar isso ao meu favor. Eu sabia que faria uma boa prova e só o que poderia me prejudicar era justamente o lado psicológico ou um problema mecânico, portanto comecei a pensar no Mundial como a conseqüência de um bom desempenho na prova e me foquei nisso!
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O dia D

Cheguei cedo ao local da prova para terminar os últimos ajustes na bike, arrumar minha suplementação, água, ferramentas e etc! Fiz meus alongamentos de rotina, vesti a roupa de borracha, fui pra água aquecer, ver como estava a correnteza e marcar os pontos de referência enquanto aguardava a minha largada.

A Natação + T1

Ao contrário da previsão das ondas, o mar estava muito calmo, sem ondulações e correntezas e a largada em ondas, dividida por faixas etárias evitou aquela confusão usual na entrada na água, o que teoricamente contribuiria para uma natação muito fácil.
Me posicionei logo na segunda fila, do lado direito do pórtico, já que as bóias estavam à direita e teríamos de contorná-las para este lado.
Ao soar da buzina fiz uma corrida forte no curto trajeto de areia até a água, e como éramos relativamente poucos largando a cada 5 minutos, desde a entrada já consegui encaixar um bom ritmo de braçadas.
Em poucos metros, já na primeira bóia alcancei alguns retardatários que largaram 5 e 10 minutos antes de mim, não eram muitos nesse início mas ao longo dos 1,9km o número de toucas verdes e amarelas foi aumentando (a minha touca era azul – última bateria masculina a largar) mas nada que atrapalhasse.
Continuei em ritmo forte, deslizando bem e utilizando a técnica pra não elevar muito a frequência cardíaca. O mar parecia uma piscina de tão calmo e isso me empolgou, ao ver que a bóia de orientação na saída se aproximava resolvi aumentar um pouco a frequência de pernadas e acelerar o ritmo. Deu certo! Ao sair da água olhei para o Garmin, que marcava pouco mais de 28 minutos.
Corri forte na saída da água já abaixando a roupa de borracha até a cintura e passei pelo pórtico com 28’43”. Um começo excelente fazendo minha melhor natação em provas de 70.3.
Entrei na área onde os staffs ajudavam a retirar a roupa de borracha, me deitei e em segundos já estava entrando na T1 (transição natação x pedal).
A prova continua dentro da T1, por isso tentei ser o mais rápido possível. Peguei a sacola azul (sacola onde guardamos os equipamentos a serem utilizados no ciclismo), guardei minha roupa de borracha na sacola, coloquei meu kit de troca de pneu no bolso do macaquinho, afivelei o capacete e parti pra bike.
Esse começo de prova me deixou super animado…
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Ciclismo + T2

Sabia que essa etapa seria muito dura, mas eu estava preparado, havia treinado muito e como fiz um bom início de prova já subi na bike com uma injeção extra de confiança.
Desde o começo imprimi um ritmo forte e rapidamente fui ganhando várias posições, os primeiros 30km em trecho plano me permitiram andar numa média aproximada de 37km/h mas logo veio a temida subida da grota funda, e nesse momento a chuva começava a cair!
Achei que fosse desabar um temporal, e só pedia pra que isso acontecesse depois que eu saísse desse trecho de subida e descida, mas acabou ficando só no chuvisco, ainda bem!
Minha suplementação foi toda muito bem elaborada pela nutri Julia Engel, com sachês de gel, bisnaguinhas e cápsulas de sal, água no aero drink e repositor em outra caramanhola, mas como esmaguei os pedais as câimbras vieram no final do ciclismo! Soltei os pés com a bike em movimento, dei uma leve sacolejada nas pernas, clipei novamente e segui em um ritmo mais lento…mas sempre que o ritmo caía eu me lembrava de um brother chamado Miguel Morone me falando a seguinte frase antes da prova: “Se você tá vindo pra buscar a vaga no Mundial você tem que andar o tempo todo no desconforto, muito perto do limite!”. Essas palavras martelaram na minha cabeça durante a prova!
Segui firme até o final, as dores foram diminuindo e quando entreguei a bike minhas pernas pareciam zeradas. Apesar do percurso com duas subidas fortes consegui fechar o ciclismo em 2h33’47”, fazendo também meu melhor pedal em provas 70.3.
Entrei na T2 com dois atletas da minha categoria, procurei fazer uma transição rápida pra começar a corrida antes deles mas ao mesmo tempo confiando muito na minha corrida.

Corrida

Nesse momento uma leve confusão mental… Ao mesmo tempo que saía da T2 muito confiante por estar fazendo, até então, a melhor prova da minha vida, era sempre nesse início de corrida que minhas pernas travavam! Sempre a minha melhor modalidade ficava prejudicada pelas câimbras, mas resolvi não pensar nisso. Saí pra correr forte, sem me preocupar com o que poderia acontecer.
Logo na saída da T2 vi muitas pessoas conhecidas que assistiam a prova, algumas gritando meu nome, dando uma super força e cada vez que passava perto dessa galera ficava todo arrepiado e carregado de boas energias.
Meu brother Thiago Lessa, que assistia a prova, me orientou sobre minha posição perante a dois atletas da minha categoria que estavam logo à minha frente, e segui em um ritmo forte pra tentar tirar a diferença.
O percurso com várias subidas e descidas prometia uma briga boa, mas logo no 2ºkm, ainda no trecho plano, advinha só…não preciso nem falar, né?

Câimbras

Travei…as mesmas câimbras, no mesmo músculo, nas duas pernas…
Agachei, massageei, rezei…desespero total porque além de aumentar a diferença para os dois atletas que eu estava caçando, um terceiro atleta da minha categoria me ultrapassou! A cabeça começava a pirar…eis que surge um transeunte, para do meu lado e fala:
“O que houve, brother?! Câimbras?! Bora, irmão! Não para…continua andando e vai soltando as pernas! Se parar é pior…”.
Resolvi seguir seus conselhos, voltei caminhando, ameacei um trote e em pouquíssimos minutos minhas pernas foram voltando ao normal. Consegui encaixar a corrida…mas agora eu tinha pelo menos 3 atletas da minha categoria à minha frente (os dois que eu vinha caçando desde a saída da T2 e o que me ultrapassou enquanto eu estava alongando)!
Minha corrida no plano variava entre 4’10” e 4’20″/km mas logo viriam as subidas e eu sabia que elas viriam maltratando…segui com a confiança de que os que estavam à minha frente iriam sofrer mais do que eu e aos poucos eu encurtaria a distância.
Nas subidas meu ritmo era parelho ao ritmo da galera da frente, não ganhava e nem perdia posições mas nas descidas eu quase não tocava o chão. As pontas dos meus pés pareciam molas me impulsionando e assim, logo após a primeira subida da Prainha consegui ganhar algumas posições, dentre os atletas que ultrapassei estava um da minha categoria. Só faltavam dois!
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As subidas castigavam, iam minando a resistência e as pernas começaram a sentir o cansaço. Como as câimbras haviam tomado conta das minhas pernas no início, a cada posto de hidratação eu pegava sachês de sal, água e gatorade pra tentar evitar que as dores voltassem.
Segui firme para fechar a primeira volta e novamente passando pela área onde se encontrava a galera que assistia a prova me enchi de energia.
Thiago Lessa (meu brother que citei acima que estava marcando os dois atletas da minha categoria) quando me viu, gritou:

“Eles acabaram de passar e estão com cara de cansados. Você está a 2’00” de um e 40″ do outro! Aperta que você chega…”

Como eu estava chegando no retorno do km 10, sabia que eu cruzaria com eles já abrindo a segunda volta, então meti um sorriso no rosto pra esconder a fisionomia cansada, arrumei a postura e assim que cruzei com eles olhei nos olhos como quem dizia “to inteiro e vou chegar”!

Últimas voltas

Abri a segunda volta apertando um pouco o ritmo, as pernas sentindo algumas fisgadas, nesse momento abri dois sachês de sal e enfiei na boca, sem água…quase vomitei mas respirei fundo e consegui controlar aquela sensação ruim.
Como o trajeto da corrida eram duas voltas iguais percorrendo os mesmo trechos, assim que passei no local onde eu havia parado pra alongar na primeira volta, dessa vez correndo, o tal transeunte que havia me ajudado, gritou:
“Agora sim! Gostei de ver… Arrebenta, brother.”
Mais uma injeção de ânimo pra continuar a minha perseguição, que estava diretamente ligada à possibilidade de conseguir a tão sonhada vaga para o Mundial!
Em poucos minutos já estávamos entrando no trecho de subidas da Prainha novamente e logo ao fim da subida avistei o Júnior Cordella, brother triatleta que estava assistindo a prova, que quando me viu, fez a seguinte pergunta:
  • “o que houve, Guido? Se machucou?”
Não consegui responder, apenas balancei a cabeça negativamente, sem entender o motivo da pergunta…mas logo veio o complemento.
  • “seu nariz está sangrando!”
Levei a mão ao nariz e realmente estava sangrando. Não sabia se era pela quantidade de sal que eu havia ingerido, se era pelo esforço exagerado ou se pela combinação dos dois, mas resolvi não me abalar. Continuei correndo, com certa frequência eu checava se o sangramento havia estancado mas isso começou a me distrair e tirar o foco da prova!
Respirei fundo e percebi que o sangue não estava mais escorrendo…pensei:
“Bora porque ainda tenho mais algumas ultrapassagens pra fazer, minha vaga tá dependendo disso…”
Eu fazia força nas subidas, corria solto nas descidas e não conseguia chegar nos caras…nada deles no meu campo de visão. A preocupação aumentava na mesma proporção dos km no Garmin, já estava na metade da última volta e nada! Ao mesmo tempo que eu tentava me convencer de que uma boa prova me bastaria, no fundo eu sabia que não me sentiria completo se a vaga não viesse.
Passados os trechos de subida e descida agora faltavam cerca de 4km pra fechar a prova. Minha técnica se mantinha firme, já não sentia dores, uma sensação de êxtase começava a tomar conta de mim. Eu olhava o relógio com o tempo da parcial de corrida, sem ter noção do tempo total de prova pra não afetar o lado emocional e fui, passada a passada, me aproximando da reta de chegada.

Corrida final

A alguns bons 1.000m antes da linha de chegada já haviam vários espectadores vibrando com os atletas que por ali passavam e quanto mais perto do pórtico maior era a vibração, a torcida aplaudia como se fôssemos heróis. 200m finais, ninguém à frente que eu pudesse ultrapassar e ninguém atrás que pudesse me ameaçar…
A chegada se aproximando e aquela sensação única e indescritível de pisar no tapete azul subia pelas pernas até me arrepiar o couro cabeludo! Todo mundo gritando, música tocando e eu sozinho, caminhando os últimos 10 metros até cruzar a linha de chegada com os braços erguidos.

Tempo e parciais

Apesar dos contratempos e do duro percurso, consegui fechar a meia maratona em 1h33’36”, com tempo total de prova de 4h41’04”.
O que me rendeu a 26ª colocação geral, dentre mais de 800 atletas que concluíram a prova, e a 4ª colocação no age group, além da tão sonhada vaga para o Ironman World Championship 2016.
Texto:
Guilherme Guido, Siga no Instagram @guilhermeguitri
@guilhermeguidotri
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Marcello Paiva
Idealizador do portal @30tododia
Professor de Educação Física – UFRJ
Pós graduação em Fisiologia do Exercício e Programação Neurolinguística.
Coaching deTreinamento / Palestrante Motivacional
Consultas: 21 2529-6473
Email: marcellopaiva@30tododia.com.br
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Marcello Paiva
Idealizador do portal @30tododia Professor de Educação Física - UFRJ Pós graduação em Fisiologia do Exercício e Programação Neurolinguística. Coaching deTreinamento / Palestrante Motivacional Consultas: 21 2529-6473 Email: marcellopaiva@30tododia.com.br